Flavio Cruz

Nós precisamos dos corvos


A pequena cidade de Córregos Claros vivia feliz, mas ultimamente estava tendo problemas com os corvos. Eles vinham em grande quantidade e devoravam qualquer sinal de carniça que aparecesse, com uma ferocidade sem igual.
Talvez houvesse muitos animais, principalmente pequenos, que estivessem morrendo de alguma doença e era por isso que estavam vindo aos borbotões. Entretanto, ninguém pensou nessa possibilidade, todos estavam furiosos com os abutres. Bichos feios, escuros, nojentos. O prefeito, daqueles que é amigo de todo mundo, claro que estava a par do assunto. Poderia ter chamado alguém da Secretaria de Saúde ou ter chamado algum veterinário para esclarecer o assunto, mas achou que não havia necessidade. Ele era a lei, a autoridade. Convocou todo mundo para uma reunião lá no salão paroquial, único lugar que podia acomodar bastante gente.
Falou com eloquência, embora com muitos erros gramaticais, mas isso ninguém percebeu. O importante era resolver o problema, acabar com aquela raça maldita, que estava escurecendo os céus da linda cidade. Pediu para todo mundo tirar as espingardas do baú. Outras armas poderiam ser usadas também, a autoridade iria olhar de lado no caso de armas não registradas. Era um caso de calamidade. Formariam uma espécie de “exército de libertação” de Córregos Claros.
E assim foi. Em poucos dias as pobres aves foram dizimadas. Entraram até nos bosques ao redor da cidade para ver se ainda havia sobreviventes. Alguns se preocupavam em enterrar os corpos, mas muitos achavam que era até bom deixá-los ali expostos. Seria uma advertência ou então uma isca para os malignos ou incautos que viessem se alimentar de seus próprios irmãos. Alguém esclareceu que aquilo era besteira, que corvo não come carne de corvo. Eles se respeitam. Enfim...
Passaram-se alguns dias e começou um terrível  mau cheiro. Além dos cadáveres dos abutres, ainda havia os dos animaizinhos, de diversas espécies, que continuaram morrendo. A coisa ficou insustentável, pois, além de tudo, as pessoas começaram a ficar doentes também.
O professor de Biologia da escola explicou, num artigo do pequeno jornal local, que, na verdade, os corvos eram importantíssimos para a saúde pública, pois ao devorarem os restos animais em putrefação, estavam nos livrando das bactérias e, consequentemente, das doenças.
O prefeito ficou uma fúria. Nova reunião, salão paroquial. O professor foi chamado de subversivo, anarquista, agitador. Ele se lembrava dessas palavras da época da ditadura, mas muita gente nem tinha ideia do que ele estava falando. Falou que iria pedir a sua transferência da cidade. Tinha amigos na Secretaria da Educação e tudo mais. Não precisou, pois o professor mesmo se transferiu. Muitos pensaram que foi por causa do prefeito, mas não foi não. Ele estava com medo era de pegar alguma doença.
Na mesma reunião, o prefeito sabiamente explicou que os corvos eram inteligentes, e certamente só estavam vindo à noite, porque, sendo escuros como o capeta, ninguém os veria. E no meio das trevas espalhavam as doenças. Precisavam iniciar as patrulhas noturnas. Os grupos se reorganizaram.
No final muita gente acabou morrendo e a administração do prefeito um dia acabou. Veio gente da Saúde, fez uma desinfecção geral, mas as coisas só ficaram em ordem depois que os corvos voltaram. Eles comiam, diligentemente, qualquer ameaça de formação de bactéria.
Muita coisa pode se deduzir dessa história. Muita mesmo. Mas existe gente lá, na pequena cidade, que nunca vai entender. Assim, vamos resumir da seguinte forma:
“Nós precisamos dos corvos.”

 

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Veröffentlicht auf e-Stories.org am 07.05.2015.

 

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